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Leandro Duarte



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sábado, 2 de maio de 2015

Relógios biológicos existem?

Excelente sequência de ideias do amigo John Araújo publicados na revista Neurociências em 2005.


Relógios biológicos existem?

John Fontenelle de Araújo

O cronobiologista Luiz Menna-Barreto (GMDRB-USP), durante o International Symposium on Circadian Rhythms, Sleep and Memory [1], lançou uma provocação à platéia: afirmou que relógios biológicos não existem. Menna-Barreto conseguiu provocar os participantes durante todo o evento. Tanto durante as conferências quanto nos intervalos, todos discutiam se relógios biológicos realmente existem. A argumentação foi de que o atual conhecimento da cronobiologia, tanto em relação aos estudos comportamentais quanto aos de biologia molecular, fazem com que a expressão “relógios biológicos” seja desnecessária e que atualmente deveríamos falar apenas que os “relógios biológicos” foram construtos teóricos utilizados pelos pesquisadores para explicar os modelos da ritmicidade circadiana. Menna-Barreto não está sozinho; outros autores também concordam com ele, como o pesquisador Colin Pittendrigh, um dos pais da cronobiologia. Michael Menaker [2] relata a seguinte conversa que teve com Pittendrigh dois dias antes deste falecer: “One of the last things that Colin Pittendrigh said to me, at the end of his life, was that he thought the term ‘biological clock’ had probably outlived its usefulness. I initially disagreed primarily because it has been such a useful term in generating interest. However, his point was well taken: it may be more useful to talk about ‘temporal programs’, not clocks per se.” Brandstaetter [3] em uma discussão sobre os osciladores periféricos considera que é necessário superar o dogma de que “os núcleos supraquiasmáticos sejam o relógio circadiano central”, e considerá-lo como um sincronizador do meio interno. Em nosso trabalho de mestrado [4], propusemos um modelo de rede de múltiplos osciladores com múltiplas freqüências como um modelo explicativo para a ritmicidade biológica. Esta idéia foi inspirada no modelo de rede imunológico. Concordamos com Menna-Barreto e consideramos que devem haver novas definições dos termos atualmente usados na cronobiologia. Assim, propomos que o termo “relógio” seja trocado para “oscilador” e que, quando olharmos o indivíduo como um todo, devemos utilizar o termo “sistema de sincronização circadiano”. Para os núcleos supraquiasmáticos, devemos utilizar o termo “conjunto de osciladores circadianos sincronizados pela luz”. Para outros osciladores, devemos defini-los como osciladores circadianos sincronizados por uma pista ambiental (como o oscilador sincronizado por ciclo de alimentos) ou osciladores circadianos sincronizados por sinais internos (neurais ou humorais) para os osciladores periféricos. Hoje sabemos que além do oscilador circadiano sincronizado pela luz (os núcleos supraquiasmáticos), há vários outros osciladores circadianos periféricos. Quase todas as células de um mamífero expressam as proteínas relacionadas com o mecanismo molecular que controla a ritmicidade circadiana e são capazes de gerar um ritmo circadiano autosustentável quando isoladas em meio de cultura. Sabemos que há uma influência neural/humoral dos núcleos supraquiasmáticos sobre os osciladores periféricos. Talvez, em um futuro breve, encontraremos um sinal humoral periférico que module a ritmicidade
circadiana, influenciando a atividade dos núcleos supraquiasmáticos, assim como hoje sabemos que hormônios produzidos perifericamente, tais como a leptina pelos adipócitos e a grelina pelo estômago, modulam o comportamento alimentar.
A provocação de Menna-Barreto, mais do que promover uma necessidade de atualização dos termos cronobiológicos, é um grande exemplo para os jovens de que o fazer ciência está sempre promovendo mudanças na nossa maneira de olhar a realidade.


Referências
1. O International Symposium on Circadian Rhythms, Sleep and Memory foi organizado
pelo Laboratório de Cronobiologia do Programa de Pós-Graduação em Psicobiologia –
UFRN, no período de 15 a 18 de junho de 2005 na cidade do Natal, RN.
2. Menaker M. Chair´s introduction. In: Molecular clocks and light signaling. Chichester
:Wiley, (Novartis Foundation Symposium 253); 2003. p.1-2.
3. Brandstaetter R. Circadian lessons from peripheral clocks: Is the time of the mammalian
pacemaker up? PNAS 2004;101:5699-700.
4. Araujo JF e Marques N. Intermodulação de freqüências. In: Marques N, Menna Barreto L, eds. Cronobiologia: princípios e aplicações. 3 ed. São Paulo: EDUSP; 2003. p.99-117. 

Publicado em: Neurociências,2(4):187-188, 2005