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Bem vindo ao Blog "Deus ajuda só a quem cedo madruga?"



Este espaço abrange textos sobre divulgação científica, cronobiologia, ritmos biológicos, tempo e também serve como um projeto em andamento de intersecção entre ciência&música


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Um Abraço



Leandro Duarte



segunda-feira, 6 de junho de 2011

Sincronia do sono

Horários noturnos e irregulares de trabalho, cada vez mais comuns, são responsáveis por uma série de problemas de saúde. Em evento na capital paulista, pesquisadores discutem estratégias para lidar com a questão.
Por: Fred Furtado

A crescente demanda por informação leva indivíduos a trabalharem em horários fora do padrão, o que afeta o seu relógio biológico. Pesquisadores testam técnicas de exposição à luz na tentativa de contornar o problema. (foto: Christiaan Kuun/ CC BY 2.0)

Trabalhar no horário noturno ou em turnos irregulares pode levar a uma série de problemas de saúde, como estresse, problemas gástricos e distúrbios cardiovasculares. Uma maneira de combater esse quadro é empregar a iluminação do ambiente de trabalho para adiantar ou atrasar o ritmo biológico do trabalhador.
O tema foi discutido no evento ‘Working time: effects and interventions’ (‘Hora do trabalho: efeito e intervenções’), realizado em fevereiro último na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).
O evento, que trouxe dois pesquisadores estrangeiros da área, é resultado de um maior estímulo das agências de fomento para interações internacionais e do aumento no interesse de doenças relacionadas à organização do trabalho.
“O conceito engloba distúrbios que resultem de turnos de trabalhos irregulares ou em horário noturno, e ausência e duração de pausas durante a atividade. Tudo isso afeta nosso ritmo biológico e atrapalha o ciclo do sono”, diz a coordenadora do evento, a bióloga Cláudia Moreno, do Departamento de Saúde Ambiental da USP.
Segundo ela, esses problemas se tornaram mais comuns atualmente, quando boa parte da população vive no que é chamado ‘sociedade 24 horas’.
Problemas relacionados ao horário de trabalho se tornaram mais comuns atualmente, quando boa parte da população vive na chamada ‘sociedade 24 horas’
“A demanda por informação constante é grande e aumenta cada vez mais. Para supri-la, é necessário que os indivíduos trabalhem em horários fora do padrão de modo a poderem acompanhar o que ocorre no mundo”, esclarece a bióloga. Com o desenvolvimento do Brasil e o crescimento da economia, isso está se tornando um problema aqui também e daí o interesse pela área.
Cláudia Moreno ressalta que, normalmente, somos capazes de nos ajustar a mudanças no nosso relógio biológico, ou, como os pesquisadores o chamam, sistema de temporização circadiano.
“Desde que haja tempo, isso ocorre de forma natural ao longo de 20 a 30 dias. Quando as viagens eram mais lentas, não havia problema, mas hoje podemos ir daqui para o Japão em menos de um dia, invertendo completamente o nosso ritmo de dia e noite – ficamos acordados quando devíamos estar dormindo”, conta, se referindo ao jet lag, a falta de sincronia sentida por viajantes que atravessam muitos fusos horários.

Azul para não dormir

Durante o evento, uma das palestrantes, a pesquisadora sul-africana Debra Skene, da Universidade de Surrey, na Inglaterra, falou sobre uma das maneiras estudadas para combater os distúrbios de organização do trabalho – aumentar a exposição à luz. “Essa é uma técnica para minimizar ou prevenir os problemas, quando mudar o horário de trabalho não é possível”, esclarece Cláudia Moreno.
O objetivo de intensificar a exposição à luz é atrasar ou adiantar o ritmo biológico do trabalhador, fazendo com que ele durma mais tarde ou mais cedo. “Ao expor o trabalhador à luz intensa no final do dia, sinaliza-se ao organismo um dia mais longo – na verdade, o fotoperíodo seria mais longo –, provocando um atraso de fase no sistema de temporização circadiano. Já a exposição à luz antes do amanhecer sinalizaria uma noite mais curta e, portanto, levaria a um adiantamento de fase no sistema”, explica a bióloga.
Os primeiros testes foram realizados com luz branca, mas, com o progresso do estudo, os pesquisadores descobriram que o comprimento de onda na faixa azul é o mais eficiente para se obter o efeito desejado.

Pesquisadores desenvolvem estratégias de iluminação para ajustar ritmo biológico de trabalhadores em horário noturno ou irregular. Os testes mostraram que a luz azul é a mais eficiente para se obter o efeito desejado. (foto: David Gwynn/ Scx.hu)

A técnica tem sucesso porque o principal regulador do nosso sistema de temporização circadiana é a alternância luminosa que ocorre ao longo das 24 horas de um dia (ciclo claro e escuro, que varia de acordo com a latitude).
A luz é captada por uma proteína fotorreceptora chamada melanopsina e encontrada na retina. Ela envia as informações que colhe para a região conhecida como núcleos supraquiasmáticos, localizada no hipotálamo cerebral. Com esses dados, o cérebro regula as respostas fisiológicas apropriadas para cada parte do dia, como a liberação dos hormônios cortisol pela manhã e serotonina à noite.
“Há osciladores periféricos, como o fígado e o rim, que, provavelmente, atuam em conjunto com o sistema central”, observa Cláudia Moreno. 
Os cientistas estão analisando vários parâmetros para caracterizar o efeito e entendê-lo melhor
Apesar do sucesso inicial da técnica, ainda há muitas questões a serem resolvidas. Os cientistas estão analisando vários parâmetros -- intensidade da luz, duração da exposição etc. – para caracterizar o efeito e entendê-lo melhor.
“Temos que desvendar o mecanismo para poder empregá-lo em larga escala com segurança. Por exemplo, se atrasássemos demais o ritmo de alguém, poderíamos prejudicá-lo, causando sonolência no dia seguinte quando ele deveria retornar ao trabalho”, conclui a bióloga.

Fred Furtado
Ciência Hoje/ RJ
Texto originalmente publicado na CH 281 (maio de 2011).

terça-feira, 17 de maio de 2011

Relógio biológico influencia efeito dos medicamentos

JULIANA VINES
DE SÃO PAULO


Há doenças e sintomas que parecem marcar hora para aparecer. E, para tratá-los, também é preciso seguir o relógio, segundo a cronofarmacologia ""ramo da ciência que estuda como doenças e tratamentos são influenciados pelos ritmos biológicos.
Nos últimos 20 anos, a cronofarmacologia mudou a prescrição de alguns remédios, diz o neurologista John Fontenele Araujo, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
"A asma é o exemplo mais clássico. Sabemos hoje que as piores crises são à noite, e que o paciente deve se medicar antes de dormir."
Há outros remédios que já são prescritos levando em conta o relógio biológico, como as drogas anticolesterol (usadas mais à noite) e remédios para artrite e artrose, que também devem ser tomados antes de dormir.
Segundo o pneumologista José Manoel Jansen da Silva, um dos autores do livro "Medicina da Noite" (Ed. Fiocruz, 339 págs., R$ 74), a atenção aos horários pode aumentar a eficácia das drogas e diminuir os efeitos colaterais.
"A ação de um medicamento deve acontecer quando o corpo mais precisa", diz.

PRESSÃO ARTERIAL

É pela manhã que acontece o maior número de infartos e derrames.
Isso porque a pressão arterial sofre uma alteração antes do despertar, causada pelo aumento na secreção de dois hormônios: o cortisol ("hormônio do estresse") e a adrenalina.
Muitas pessoas tomam remédio para controlar pressão alta pela manhã. Mas uma pesquisa canadense, que será publicada no dia 17 no "Journal of the American College of Cardiology", diz que o indicado é que o remédio seja tomado antes de dormir.
Segundo os pesquisadores, da Universidade de Guelph, o remédio será mais eficaz durante o sono, inclusive contra insuficiência cardíaca. O experimento foi feito em ratos, com a droga captopril.
Segundo Regina Pekelmann Markus, biomédica e coordenadora do laboratório de cronofarmacologia da USP, o artigo confirma uma tendência.
"Na Espanha, há médicos que já mudaram a prescrição de remédios de hipertensão. A mudança é para proteger o paciente no pico de pressão pela manhã."
De acordo com o cardiologista Marcus Bolívar Malachias, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, o estudo mostra a importância do controle da pressão durante a noite, mas, no caso de drogas com ação de 24 horas, não é preciso mudar a prescrição.
"Os remédios usados uma vez ao dia devem ser tomados pela manhã, a não ser quando o paciente não responde ao tratamento normal."

CRISES

Há pesquisas que relacionam depressão e ritmos biológicos, segundo o neurologista John Araujo. Mas é errado falar que a doença tem um horário para aparecer.
"Muitas pessoas têm crises pela manhã, mas é impossível falar em uma regra. A hora de tomar o remédio depende do caso", diz Fernando Fernandes, do HC.


fonte:

sábado, 14 de maio de 2011

Chico Buarque

COTIDIANO


Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.

Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.

Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.

Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.

Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher.
Diz que está me esperando pr'o jantar
E me beija com a boca de café.

Todo dia eu só penso em poder parar;
Meio-dia eu só penso em dizer não,
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão.

Seis da tarde, como era de se esperar,
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão.

Toda noite ela diz pr'eu não me afastar;
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pr'eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor.

Todo dia ela faz tudo sempre igual:
Me sacode às seis horas da manhã,
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã.


quarta-feira, 11 de maio de 2011

Caetano Veloso

ORAÇÃO DO TEMPO

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...







João Guimarães Rosa

"Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta!... O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem."


João Guimarães Rosa

terça-feira, 5 de abril de 2011

CRONOTIPOS HUMANOS: DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA E ORGANIZAÇÃO TEMPORAL INDIVIDUAL

APRESENTAÇÃO

Durante o Mestrado, ao estudar a ritmicidade circadiana de peixes, deparei-me
com o conceito que mais me acompanhou durante o doutoramento: plasticidade dos
ritmos biológicos. A plasticidade ou a capacidade de modificação, ajuste, “labilidade” é
a característica mais importante que um indivíduo tem que exibir ou adquirir para se
ajustar ao meio em que vive. E, se falamos de um meio ambiente cíclico, estamos
levando em consideração, os ajustes temporais, ou o processo de sincronização entre um
sistema de temporização circadiana e o ambiente e as diferentes estratégias que um
indivíduo utiliza para realizar esta sincronização. A temática deste trabalho não é
evolutiva como na época do mestrado com os peixes, também não utiliza modelos
animais e sim, o estudo da ritmicidade humana em seu ambiente natural. Tomei o
cuidado, influenciado fortemente por meu orientador, de não estigmatizar ou rotular as
pessoas e transformar o assunto: Matutinidade-vespertinidade em humanos em mais
uma forma equivocada- já são tantas-de nos diferenciarmos como seres humanos. Uma
frase que li não me lembro onde e, portanto, não saberia citar sua referência autoral
dizia: “A máxima igualdade é aquela que permite o exercício das diferenças”. No
presente trabalho, essas diferenças dizem respeito a diferenciação intuitiva que fazemos
quando analisamos o comportamento das pessoas e identificamos aquelas que preferem
dormir e acordar cedo, aquelas para quem não faz diferença os horários mais matutinos
ou vespertinos e, aquelas que preferem dormir e acordar mais tarde. E tão importante
quanto essas diferenças, são os conflitos enfrentados por esses indivíduos: basta
constatarmos a existência de pessoas que não conseguem permanecer em um
compromisso social noturno ou não conseguem continuar dormindo pela manhã quando
assim desejam: os matutinos; e aquelas que não conseguem acordar cedo, ou assim o
fazem com uma boa dose de mau humor: os vespertinos. A julgar pelas frases “Deus
ajuda a quem cedo madruga, “Chi dormi no piglia pesci”, “A quiem madruga, Dios le
ayuda”, Morgenstund hat Gold im mund” e, a mais escandalosa, a de Benjamin
Frankling “Dormir e acordar cedo fazem um homem saudável, rico e sábio” é fácil
concluir o quanto a sociedade têm como virtude as características matutinas. O tema não
podia ser mais estimulante para mim, pois como um bom vespertino, sofro com as
demandas sociais matutinas, principalmente tendo que ir morar no estado da Bahia no
decorrer deste trabalho. O estudo da plasticidade dos diferentes cronotipos humanos, em
nível populacional e em nível individual, constituem o tema principal desta tese, que,
pretendo eu, colabore com o entendimento desta particular característica humana tendo
sempre como pano de fundo o estímulo para o aumento de nossa liberdade em
exercitarmos nossas diferenças inter-pessoais, nesse caso, nossas diferenças temporais.
Leandro Lourenção Duarte
Setembro de 2008