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Leandro Duarte



QUE HORAS SÃO?

domingo, 16 de outubro de 2011

Começa o Horário de Verão



A adoção do horário de verão impõe o avanço de uma hora na primavera e verão em relação ao horário adotado no outono e inverno. Avanço da hora do relógio de parede, mas não do relógio biológico. Pelo menos não com a mesma velocidade. Como um dependente do outro, lá vamos nós ajustarmos os dois. Um é extremamente mais fácil do que o outro, basta adiantarmos uma hora o "cuco" pendurado na parede que o domingo se transforma num dia de 23 horas. Já o outro, por se tratar de matéria viva, demora de cinco dias a duas semanas com base em dados que dispomos hoje. 



O Horário de Verão foi originalmente introduzido na Alemanha em 1916 e até hoje é aplicado em muitos países devido aos resultados positivos no consumo de energia elétrica.  A maioria dos autores de trabalhos na área de cronobiologia e medicina do sono relatam a presença de distúrbios do sono, dificuldades no ajuste ao novo horário, principalmente em crianças que têm que se deslocar para escola na parte da manhã, quando ainda está escuro.
É mais difícil nossos relógios biológicos (ou sistema de temporização circadiana) adiantar sua fase do que atrasá-la,  pois a tendência é oscilarmos com um período maior do que 24 horas. Isso pode explicar porque na saída do horário de verão o ajuste ao novo horário (1 hora atrasado) é mais rápido.  Na verdade, o período endógeno de 25 horas é tido como a média que serve para 50% da população, pois, para a minoria matutina o período endógeno é MENOR do que 25 horas e para a minoria vespertina o período endógeno é MAIOR do que 25 horas. Talvez sejam essas minorias que sofram mais com as mudanças do horário de verão e vamos tentar entender o porquê disso.
Uma parte de meu trabalho de doutoramento1 foi realizada enfocando o desconforto com a entrada do horário de verão na população brasileira.




Quase metade da população estudada (foram cerca de 20.000 pessoas) apresenta desconforto com a entrada do horário de verão, uma proporção considerável. Nota-se que esse desconforto atinge a população feminina em maior quantidade do que a masculina (48% x 38%). A explicação para esse fenômeno é a diferente plasticidade nos ajustes temporais entre diferentes gêneros. As teses atuais de cronobiologia creditam ao ciclo mestrual feminino a causa da menor plasticidade circadiana feminina (assunto que ainda renderá muitos estudos).
Em relação a diferença de CRONOTIPOS, os indivíduos mais vespertinos relataram sentir o desconforto durante toda a duração do Horário de Verão (HV) enquanto que os mais matutinos esse relato se refere a primeira semana após a implantação do HV.


À esquerda do gráfico temos a pontuação do Questionário de Cronotipo, quanto maior a pontuação, mais matutino é o indivíduo, quanto menor a pontuação, mais vespertino.
O adiantamento de fase necessário na ocasião da entrada do horário de verão constitui um problema principalmente para os indivíduos matutinos e vespertinos (especula-se que esses indivíduos tenham um maior acoplamento do sistema de temporização e portanto uma menor plasticidade temporal).  Para os primeiros, que são indivíduos que apresentam uma regularidade circadiana bem característica, a primeira semana torna-se bem exaustiva, pois iniciarão suas atividades sociais ainda no escuro e terminarão ainda no claro (sinais contraditórios que sinalizam que de manhã é hora de estar na cama e à tarde é hora de continuar em atividade). São os indivíduos que mais tem problemas relacionados à viagens transmeridianas e ao trabalho em turnos rotativos. No caso dos vespertinos, os problemas AGUDOS da entrada do horário de verão não são tão prejudiciais quanto os CRÔNICOS, pois esses já estão acostumados a IRREGULARIEDADE, tanto que são os que mais suportam os trabalhos em turno rotativos e as mudanças rápidas relacionadas as viagens com mudança de fuso horário.

Podemos concluir que para os indivíduos matutinos os problemas AGUDOS que surgem com a entrada do horário de verão são os que mais tem peso. Por outro lado, os vespertinos sofrem com a cronicidade dessa mudança pois são pessoas que já estão sempre correndo contra o relógio, e, nesses quase três meses de horário de verão, oito horas da noite ainda estará claro, indicando ao organismo que o dia ainda está presente. A análise dos ritmos de atividade e vigília/sono de 50 indivíduos de diferentes cronotipos durante oito semanas indicou que principalmente os vespertinos não se ajustaram à nova rotina imposta pelo início do Horário de Verão2. Acordar cedo e com luz solar, uma atividade que é difícil para os vespertinos cotidianamente, durante o horário de verão, acordar cedo e no escuro torna-se um desafio temporal que não combina com a dificuldade que estas pessoas tem em ir dormir cedo.

Na literatura, encontramos trabalhos indicando que a semana seguinte à entrada do HV apresenta índices maiores de acidentes de trânsito e de trabalho embora não haja consenso entre a comunidade científica sobre as conseqüências da implantação do HV no processo de sincronização  aos ciclos claro/escuro e sociais. É razoável propormos que durante o período de ajuste ao novo horário as pessoas evitem realizar tarefas repetitivas por tempo prolongado, especialmente se houver risco de acidente. Em relação as estratégias para minimizar os sofrimentos, aumentar a exposição a luz solar durante as manhãs e diminuir durante a noite (isso mesmo, dê uma olhada no canto direito de seu computador, assuste-se com o avançar da hora e deixe o facebook/MSN/internet para amanhã) são dicas válidas para ajudar nosso sistema de temporização no processo de ajuste. Aproveite a onda de preparação para curtir o verão com exposição ao sol -com a devida proteção- e fazer atividades físicas ao ar livre durante o dia. Isso reforça os sinais sincronizadores e ajuda na preservação de um ritmo forte de melatonina. No mais, desligue seu computador agora, tome um chá relaxante e vá dormir! Hoje o dia só tem 23 horas...  


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