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Bem vindo ao Blog "Deus ajuda só a quem cedo madruga?"



Este espaço abrange textos sobre divulgação científica, cronobiologia, ritmos biológicos, tempo e também serve como um projeto em andamento de intersecção entre ciência&música


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Leandro Duarte



QUE HORAS SÃO?

quinta-feira, 31 de março de 2011

Ser ou não ser bom de cama? Eis a questão…


por Daniela Wey
Calma não é o que você está pensando!
Quantas horas são necessárias para dormirmos bem? Para esta questão segue a recomendação de que nosso organismo necessita entre 7-8 horas de sono. Será?
Um sinal de que dormimos a quantidade de horas suficiente está na disposição que sentimos para realizar nossas atividades no dia seguinte. A recomendação de 7-8 horas de sono é baseada num valor médio da população humana que não leva em consideração as diferenças individuais, de gênero, e ontogenéticas, ou seja, todo mundo seria igual.
O que acontece com aquelas pessoas que precisam de somente 6 horas para dormir, seriam casos patológicos? Seriam considerados indivíduos insones? Certamente você deve estar pensando que, com tanta coisa pra fazer no seu dia, gostaria de sofrer de uma patologia destas. Por outro lado, existem pessoas, como eu, necessitam de mais de 9 horas para dormir bem. Ao contrário dos indivíduos classificados como “pequenos dormidores” (que dormem apenas 6h ou menos) os “grandes dormidores” (que dormem 9h ou mais) são muitas vezes considerados preguiçosos e poderiam aprender a dormir “direito” caso fossem “treinados” para isto.
Um dos primeiros relatos científicos sobre pequenos e grandes dormidores foi feito por Wilse B. Webb em 1979 e este assunto foi retomado em 2003 por Aeschebach e colaboradores. Este grupo de pesquisadores, liderados por Thomas Wehr, demonstrou que a necessidade de horas de sono é muito mais do que uma questão de treinamento, mas está atrelada a diferenças no funcionamento do sistema de temporização circadiano. Descrito por Robert Moore em 1992, o sistema de temporização circadiano sincroniza os ritmos de um organismo com os ritmos ambientais. Através da retina a variação de claro/escuro ambiental chega a um conjunto de neurônios localizados na região anterior do hipotálamo, conhecidos como núcleos supraquiasmáticos, os quais emitem sinais que modulam a expressão de variáveis fisiológicas e comportamentais. Alguns destes sinais temporais eferentes como a secreção de melatonina, de cortisol, e a temperatura central, promovem/modulam o ciclo vigília/sono.
Aeschebach e colaboradores verificaram que os grandes dormidores não apenas dormem mais cedo e acordam mais tarde do que os pequenos dormidores, mas também prolongam o intervalo noturno dos sinais temporais eferentes. Enquanto os grandes dormidores atrasam o horário de acordar, os pequenos dormidores atrasam o início do sono em relação ao início da queda da temperatura central e ao aumento de melatonina plasmática, ou seja, essas pessoas apresentam uma tolerância maior aos sinais circadianos que promovem o sono e por isso vão para cama num horário mais tardio do que é “indicado” pelo sistema de temporização. O horário de acordar nos dois grupos foi muito próximo ao término das variáveis fisiológicas circadianas, no entanto, o intervalo entre o pico de cortisol e o horário de acordar foi 2,5 horas maior para os grandes dormidores do que para os pequenos.
Isto significa que, apesar da maioria das pessoas se identificarem com a recomendação de 8 horas de sono/noite, algumas pessoas precisam de uma quantidade menor de horas de sono e outras de uma quantidade maior. A novidade trazida pelo trabalho de Aeschbach é que a quantidade de horas de sono segue um padrão de controle interno passível de ajustes externos “pero no mucho“. A recomendação a ser seguida é que cada pessoa saiba dos seus limites e possibilidades, tanto sociais quanto fisiológicas, no sentido de não ser privado de sono e sofrer as consequências no dia seguinte. Os resultados encontrados também são relevantes para os estudos das patologias relacionadas à duração de sono, que, por exemplo, ocorrem na depressão.
Daniela Wey terminou seu doutorado em 2007 na área de Neurociências e Comportamento no IP/USP.
WEBB, W.B. Are short and long sleepers different? Psychological Reports, v.44, p.259-264. 1979.
AESCHBACH, D.; SHER, L.; POSTOLACHE, T.T.; MATTHEWS, J.R.; JACKSON, M.A.; WEHR, T.A. A longer biological night in long sleepers than in short sleepers. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, v.88, n.01, p.26-30. 2003.
Moore, R.Y. The suprachiasmatic nucleus and the circadian timing system. Discussions in Neuroscience: circadian rhythms, v.08, n.2/3, p.26-33. 1992.
publicado no blog coNECte:

quinta-feira, 24 de março de 2011

Causos de Viagem: a Suécia e o subversivo sol da meia-noite

Por Claudia Carmello



Esse “causo” é meu mesmo, vivido em junho de 2008, numa viagem para visitar amigos em Estocolmo. O texto é lá do ex-blog, mas gosto tanto dessa experiência que achei que ela não podia faltar aqui. 
É um texto sobre o dia em que eu descobri uma coisa assustadora. Sabe aquela verdade que você tem como certa, absoluta, nada mais que a ordem natural das coisas? Pois então: ela pode ser só fruto da sua ignorância. ;)
“Cheguei à Suécia na madrugada passada, num vôo da Ryanair que saiu de Bergamo, na Itália (do aeroporto que eles vendem como Milão – Orio Al Serio, mas que, na verdade, fica em Bergamo).
O vôo atrasou uma hora, então cheguei só 0h40 em Skavsta (aeroporto também a 100 km de Estocolomo). Eu tinha que fazer uma viagem de 1h20 num ônibus até a estação central de Estocolmo e depois pegar um táxi até a casa de um casal de amigos que morava lá. Muito chão pela frente.
Antes de sair de Bologna,  chequei a previsão do tempo – entre 13o e 26o C, com o sol se pondo às 22h e nascendo às 3h30 da madrugada. Pensei, em minha santa ignorância: bom, são bem poucas horas de noite que eles têm no verão, mas eu vou pegar exatamente elas na minha chegada. (Aliás, se não fosse em um país tão perfeitinho como a Suécia, talvez eu tivesse pensado duas vezes antes de chegar de madrugada, sozinha, numa cidade desconhecida, com mala e dinheiro na mão).
Minha surpresa começou quando desembarquei do avião quase 1 da manhã e ainda não estava “noite”. O céu era azul escuro, com um alaranjado sutil no horizonte, de um dos lados. Peguei a mala, entrei no ônibus, e fiquei contemplando aquele céu estranho esperando que a noite chegasse. E não chegava, não chegava. O alaranjado parecia mudar de lado. De repente, veio a “iluminação”: não, fófi, não é só que não está escurecendo. O céu ainda está ficando mais claro do que quando eu tinha chegado. Eram 2 da madrugada e já estava amanhecendo!
Era óbvio, me senti uma idiota. Eu já tinha a informação de que o sol nascia às 3h30. Mas é simplesmente tão “antinatural”, pra nós dos trópicos, um amanhecer a essa hora, que, na prática, é impossível esperar por isso. É como se eu tivesse “descoberto” que a meia-noite é o meio da noite, e não o começo da noite, como nos parece. Ou seja, passada a meia-noite, se o céu não ficou preto, é porque não vai mais ficar.
Digo com toda a humildade: foi tão chocante! Era como se o “mundo” do jeito que eu conhecia estivesse do avesso. Era uma transgressão absurda. Como é que um ciclo tão certo e infalível como o amanhecer e o anoitecer pode falhar assim? “Ah,  cheguei em Estocolmo no dia 5 de junho, em uma noite em que não anoiteceu”. Ãh?
E sabem o quê? Percebi que eu havia chegado ao aeroporto preparada para entrar em um país novo, um país desconhecido, mas que era “só” mais um país europeu, rico, civilizado etc etc. Como se não houvesse choque cultural possível ali. E houve um imenso choque, um choque “natural”.
Como foi espetacular ver que, a despeito do nosso mundo a cada dia mais globalizado, que se repete na moda, nas marcas de sabonete, nas comidas, na música, ainda existem fenômenos naturais que nos lembram da diversidade desse planeta. Não é lindo saber que nem o aquecimento global, nem toda a nossa estupidez vai poder mudar a nossa rota ao redor do Sol?”
 PS: A foto é da casa dos meus amigos em Estocolmo, pelas 3 da manhã, hora em que cheguei, completamente desorientada.


disponível em:
um outro modo de viajar. slow travel. experiências.turismo sustentável




sexta-feira, 11 de março de 2011

Suécia: 'Sociedade B' cria horário de aula alternativo

Claudia Varejão Wallin
Suécia




A Suécia começa a criar este mês uma nova revolução social, com a introdução da chamada Sociedade B - uma sociedade que leva em conta os diferentes ritmos biológicos dos indivíduos para introduzir horários alternativos de funcionamento para escolas, locais de trabalho, universidades e organizações.

A primeira instituição sueca a implementar o esquema é uma escola secundária de Gotemburgo, que a partir de setembro vai oferecer turnos opcionais entre 8h e 20h.
"Por que precisamos trabalhar todos no mesmo horário, e enfrentar os mesmos engarrafamentos?", pergunta o manifesto do movimento B-Samfundet (Sociedade B).
"Por que temos que correr ao mesmo tempo para pegar as crianças na escola antes que elas fechem? Por que tudo tem que funcionar nos mesmos ritmos e horários, se isso causa problemas gigantescos na infra-estrutura da sociedade?"

Origem dinamarquesa


O B-Samfundet tem origem na Dinamarca, onde o movimento foi criado no ano passado. Ainda neste outono europeu, a Sociedade B será introduzida na Noruega e na Finlândia, e para outubro está previsto o lançamento na Grã-Bretanha.
A Sociedade B se baseia em pesquisas científicas que indicam que cada indivíduo tem seu próprio ritmo biológico, uma espécie de "relógio interno" que é geneticamente determinado.
Segundo essas pesquisas, uma "pessoa B" possui um ritmo interno de 25 a 27 horas, enquanto o de uma "pessoa A" tem um ciclo de 23 horas. As "pessoas B" são mais produtivas no final do dia e têm dificuldades de despertar de manhã cedo, que é quando as "pessoas A" são mais ativas.
É um movimento contra a tirania do despertador, que ao mesmo tempo se encaixa no debate sobre a criação de uma sociedade de horários mais flexíveis, com maior equilíbrio entre trabalho e lazer - e melhor qualidade de vida.
"Nosso objetivo é acabar com as rígidas disciplinas de horário da sociedade industrial, em que todos chegam ao mesmo tempo e saem na mesma hora", disse em entrevista a BBC Brasil Erika Augustinsson, vice-presidente do B-Samfundet.
"Vivemos em uma nova sociedade e queremos criar um novo jeito de viver, que respeite também os diferentes ritmos internos das pessoas", acrescentou.

Preguiça?
Erika destaca que esses diferentes ritmos biológicos também são uma realidade nas escolas, onde um grande número de crianças e adolescentes tem dificuldades de concentração pela manhã.
Ou seja, esses alunos não têm exatamente preguiça de levantar para ir à escola ¿ eles são apenas "pessoas B".
Na escola Vasa Lärcentrum, na cidade de Gotemburgo, o turno da tarde/noite está sendo introduzido depois de uma pesquisa realizada com os 150 alunos da instituição.
"A pesquisa mostrou que muitos estudantes consideraram a idéia bastante positiva", contou a BBC Brasil Ingela Welther, gerente de planejamento do Departamento de Educação do governo de Gotemburgo.
Segundo ela, a extensão do horário de funcionamento da Vasa Lärcentrum é uma experiência inicial, que poderá ser levada às outras escolas da rede pública:
"O objetivo é fornecer alternativas que ajudem os alunos a lidar melhor com seus estudos, e a completar sua educação com êxito".
Ingela Welther destacou ainda que a introdução do cronograma alternativo possibilita também o melhor aproveitamento das instalações da escola, que poderá absorver mais alunos.
Em outubro, o movimento Sociedade B estará lançando o primeiro website do mundo direcionado a oferta e busca de empregos para pessoas "B".

Terra notícias, agosto de 2007




           SITE DA SOCIEDADE B

quinta-feira, 10 de março de 2011

Machado de Assis

“…Trocar o dia pela noite, dizia Luís Soares, é restaurar o império da
natureza corrigindo a obra da sociedade. O calor do sol está dizendo
aos homens que vão descansar e dormir, ao passo que a frescura
relativa da noite é a verdadeira estação em que se deve viver. Livre
em todas as minhas ações, não quero sujeitar-me à lei absurda que a
sociedade me impõe: velarei de noite, dormirei de dia…”


Trecho do conto Luís Soares de Machado de Assis, do livro Contos
Fluminenses, Editora Martin Claret, São Paulo, 2006, pp. 49-69,
publicado originalmente em 1870.

CRONOTIPOS

por Leandro Duarte







          Segundo o cronotipo de cada pessoa podemos classificar os indivíduos em matutinosintermediários e vespertinos. Os indivíduos matutinos apresentam preferência por acordar nas primeiras horas da manhã e encontram dificuldades em manterem-se acordados além do seu horário habitual de dormir, enquanto que os indivíduos vespertinos, por outro lado, preferem as horas tardias de ir para cama e acordar especialmente nos finais de semana, apresentam menor tempo de sono durante a semana (devido a compromissos diários) e maior tempo de sono durante os fins de semana (quando compensam o sono semanal perdido). Por isso, o ciclo vigília/sono de vespertinos é mais irregular e tem baixa eficiência. Além disso, vespertinos utilizam mais cochilos durante o dia, compatível com a privação de sono, e apresentam maiores problemas com a atenção, maiores indisposições emocionais e maior consumo de cafeína do que os matutinos.
A distribuição dos cronotipos na população é mais ou menos a seguinte:


Distribuição de 172 indivíduos de acordo com a pontuação no Questionário de Cronotipo. Modificado de Baehr et al., 2000 Journal Sleep Research v.9 p. 121.



Ou seja, a grande maioria da população é intermediária e pequena parcela se enquadra nos tipos matutinos e vespertinos.  Quer dizer que a maioria da população faz parte da classificação dos intermediários? Sim, a maioria da população fica entre os extremos matutinos e vespertinos. Por exemplo, o horário do pico da curva de temperatura dos indivíduos intermediários está entre o horário de pico da curvas dos matutinos e vespertinos. Os intermediários conseguem se ajustar aos horários impostos mais facilmente do que os vespertinos e matutinos.


Curva de temperatura central de indivíduos matutinos e vespertinos ao longo do dia. Observe a diferença nos horários de pico e queda entre as duas curvas. Modificado de Baehr et al., 2000 Journal Sleep Research v.9 p. 124.




Alguns Conceitos de Cronobiologia


Se observarmos nosso comportamento durante algumas semanas vamos perceber que realizamos as atividades cotidianas de forma repetida ou recorrente. Dormimos e acordamos, nos alimentamos, sentimos maior disposição e maior sonolência mais ou menos na mesma hora a cada dia que passa. Acompanhando o ambiente cíclico em que vivemos (basta observarmos  as mudanças entre dia e noite por exemplo) também apresentamos ritmos diários. Normalmente, a noite estamos em repouso (e uma parte da noite dormindo) e durante o dia, em atividade. Esses ritmos são chamados de ritmos biológicos e como exemplos temos o ritmo de temperatura, os ritmos de alguns hormônios e células de defesa sanguíneas e o ciclo vigília/sono. Os ritmos biológicos que se repetem a cada dia ou mais ou menos a cada 24 horas são chamados de ritmos circadianos (circa: cerca de; diano: um dia). Alguns ritmos ambientais como o ciclo dia/noite, são capazes de interferir na organização temporal dos ritmos biológicos, causando o que chamamos de processo de sincronização. O ciclo dia/noite por exemplo, ajuda a fazer com que tenhamos sono à noite e nos mantenhamos despertos durante o dia, ou seja, sincronizados com o ambiente.
Já vimos que podemos diferenciar a população em relação a preferência por determinados horários para realização de tarefas, para dormir, alimentar-se, estudar, trabalhar, praticar esportes e uma infinidade de outras atividades. Certamente você já ouviu a expressão “cada um tem o seu próprio ritmo”. Essa expressão têm fundamento científico e a maioria dos organismos estudados apresentam relógios biológicos. No Homem, a ritmicidade circadiana é controlada por um sistema que inclui, dentre outras estruturas, os núcleos supraquiasmáticos do hipotálamo. Esses núcleos são estruturas neurais que funcionam como marcapasso de todo nosso sistema de temporização.  Então, quando dissemos que os ciclo ambientais (como por exemplo, o ciclo dia/noite ou ciclo claro/escuro) sincronizam nossos ritmos biológicos queremos dizer que, antes de mais nada, sincronizam nossos relógios biológicos.
Assim, o sistema de temporização  é caracterizado pela geração interna de ritmicidade (com os relógios biológicos) e  recebe influência dos ciclos ambientais externos. A boa interação entre o ritmo interno (ou endógeno) e os ciclos ambientais resulta na ocorrência de ritmos biológicos sincronizados.
Com tanta informação você pode estar confuso (a) afinal relógios biológicosciclos ambientaiscronotiposnúcleos supraquiasmáticos, sistema de temporização são termos pouco comuns. Hoje são estudados e sistematizados dentro de um ramo novo dentro das ciências biológicas chamado Cronobiologia. No link http://cronoeach.wordpress.com/ você encontrará maiores informações a respeito desses conceitos.


Questões para Reflexão


 Podemos então nos perguntar: se possuímos relógios biológicos, os relógios das pessoas matutinas são diferentes dos relógios das pessoas vespertinas? É possível um indivíduo vespertino ajustar seu relógio e começar acordar cedo todos os dias? Ou vice-versa, um indivíduo matutino ficar acordado todos os dias até mais tarde e acordar 11:00 todos os dias?


Essas e outras questões fazem parte de estudos contemporâneos da Cronobiologia e começam a ter algumas respostas. É fato que uma minoria da população se encaixa nos cronotipos matutinos e vespertinos. Alguns indivíduos vão mais além e se enquadram nos chamados vespertinos e matutinos extremos. Os indivíduos de cronotipos extremos, por não se ajustarem aos padrões sociais exigidos, podem apresentar o que os cientistas chamam de síndromes: assim, existem casos que o indivíduo não consegue dormir antes das 6:00 da manhã e em consequência disso, acorda sempre depois do meio dia. Por outro lado, há pessoas que dormem às 20:00h e acordam as três da manhã. Nesses casos, se estes padrões de comportamento trazem problemas de saúde e freqüentes queixas dos pacientescaracterizam-se os quadros que chamamos de Síndrome da fase atrasada (ou adiantada) do sono.
Estudos atuais mostram que talvez os indivíduos vespertinos tenham um relógio que funcione de forma mais lenta que o relógio dos matutinos. Os pesquisadores para chegarem a tais conclusões colocaram seus voluntários em ambientes em que esses não tinham  contato com os ciclos ambientais externos, expressando assim seus ritmos internos ou endógenos (diferentes daqueles que apresentariam em uma situação normal de exposição aos ciclos ambientais). Daí, comparando os ritmos de temperatura de voluntários matutinos e vespertinos encontraram uma diferença de período do ritmo entre esses voluntários. Por fim, estudos de biologia molecular têm apontado algumas diferenças em genes de expressão rítmica no genoma de indivíduos matutinos e vespertinos, o que nos leva a pensar que a existência de cronotipos diferentes possa ter influência genética também.
No entanto, a questão de até que ponto um matutino pode se tornar vespertino ou um vespertino pode se tornar matutino ainda não está completamente respondida.  Pense um pouco em seu cotidiano e procure aplicar esse conhecimento. Talvez, boas explicações podem ser dadas para àqueles casos em que o aluno dorme de manhã assistindo a aula na classe, para a dificuldade que temos em, por exemplo, acordar um de nossos filhos pela manhã, sendo que os outros já levantam com disposição, para entender o mau humor de alguns que não conseguem ficar até mais tarde em uma festa e, de outros, que tomam o café às 6:30 da manhã sem dizer bom dia pra ninguém antes das 10:00 h. As situações são muitas...










"O nosso amor é tão bom


O horário é que nunca combina
Eu sou funcionário
Ela é dançarina
Quando pego o ponto
Ela termina"



Chico Buarque de Holanda



Poemas Sobre o Tempo



Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.

Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente
Carlos Drummond de Andrade






Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças! 
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas.

Willian Shakespeare








... O tempo é algo que não volta atrás.
Por isso plante seu jardim e decore sua alma,
Ao invés de esperar que alguém lhe traga flores ...

Willian Shakespeare








Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas ...
Que já têm a forma do nosso corpo ...
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos
mesmos lugares ...

É o tempo da travessia ...
E se não ousarmos fazê-la ...
Teremos ficado ... para sempre ...
À margem de nós mesmos...

Fernando Pessoa






Faça uma lista de grandes amigos,
quem você mais via há dez anos atrás...
Quantos você ainda vê todo dia ?
Quantos você já não encontra mais?
Faça uma lista dos sonhos que tinha...
Quantos você desistiu de sonhar?
Quantos amores jurados pra sempre...
Quantos você conseguiu preservar?
Onde você ainda se reconhece,
na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria?
Quantos amigos você jogou fora...
Quantos mistérios que você sondava,
quantos você conseguiu entender?
Quantos defeitos sanados com o tempo,
era o melhor que havia em você?
Quantas mentiras você condenava,
quantas você teve que cometer ?
Quantas canções que você não cantava,
hoje assobia pra sobreviver ...
Quantos segredos que você guardava,
hoje são bobos ninguém quer saber ...
Quantas pessoas que você amava,
hoje acredita e amam você?

Oswaldo Montenegro






Quinze anos! é a idade das primeiras palpitações, a idade
dos sonhos, a idade das ilusões amorosas, a idade de Julieta; é a flor, é a vida, e a
esperança, o céu azul, o campo verde, o lago tranqüilo, a aurora que rompe, a calhandra
que canta, Romeu que desce a escada de seda, o último beijo que as brisas da manhã
ouvem e levam, como um eco, ao céu.

Machado de Assis



Poesia de Charles Pierre Baudelaire

Só nos esquecemos do tempo quando o utilizamos.


É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: "É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso". Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.



Charles Pierre Baudelaire (9 de Abril de 1821 - 31 de Agosto de 1867) foi um poeta e teórico da arte francês. É considerado um dos precursores do Simbolismo, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas. Sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Galileu Galilei

Eis um homem que acaba de ser ameaçado de tortura e prisão por tempo indeterminado, a não ser que assine sobre a linha pontilhada que lhe é imposta:
“ …Tendo diante de meus olhos o Santo Evangelho, e tocando-o com minhas mãos, juro que sempre acreditei, acredito e, com a ajuda de Deus, acreditarei no futuro em tudo o que é afirmado, pregado e ensinado pela Santa Igreja Católica e Apostólica…Que devo abandonar por completo a falsa opinião de que o Sol é o centro do mundo e é imóvel e que a Terra não é o centro do mundo e se move, e que não devo crer, defender ou ensinar a dita doutrina de qualquer maneira, seja verbalmente ou por escrito…”
Em 1632, Galileu pode ter sussurrado para si mesmo enquanto assinava, “ mas ela se move sim” Isso é algo que nunca vamos saber. Mas sua confissão nos faz lembrar que a pesquisa racional e de mente aberta sempre teve suas resistências. Não podemos dar nada como garantido e certo, pois o pensamento totalitário, quer seja religioso ou político, sempre estará conosco, sob uma forma ou de outra. Nem que seja unicamente por esse motivo, devemos fomentar uma tradição literária científica viva!

video
Ian McEwan





Quem dorme até tarde não é vagabundo, diz ciência

Segundo neurologistas, o que essas pessoas têm é distúrbio do sono atrasado

por Bruna Bernacchio


Pessoas com o gene da "verpertinidade" têm predisposição para acordar tarde


Alvo de críticas de familiares e amigos, quem gosta de ficar na cama até a hora do almoço pode ter um motivo científico para a "vagabundagem": o distúrbio do sono atrasado. O assunto foi um dos temas abordados no 6º Congresso Brasileiro do Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu recentemente em Gramado.
O organismo humano tem um ciclo diário, de modo que os níveis hormonais e a temperatura do corpo se alteram ao longo do dia e da noite. Depois do almoço, por exemplo, o corpo trabalha para fazer a digestão e, conseqüentemente, a temperatura desce, o que pode causar sonolência. 
Quando dormimos, a temperatura do corpo diminui e começamos a produzir hormônios de crescimento. Se dormirmos durante a noite, no escuro, produzimos também um hormônio específico chamado melatonina, responsável por comandar o ciclo do sono e fazer com que sua qualidade seja melhor, que seja mais profundo.
Pessoas vespertinas, que têm o hábito de ir para a cama durante a madrugada e dormir até o meio dia, por exemplo, só irão começar a produzir seus hormônios por volta das 5 da manhã. Isso fará com que tenham dificuldade de ir para a cama mais cedo no outro dia e, consequentemente, de acordar mais cedo. É um hábito que só tende a piorar, porque a pessoa vai procurar fazer suas atividades durante o final da tarde e a noite, quando tem mais energia.
O pesquisador Luciano Ribeiro Jr. da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em sono, explica que esse distúrbio pode ser genético: "Pessoas com o gene da ‘vespertinidade’ têm predisposição para serem vespertinas. É claro que fator social e educação também podem favorecer”. Mas não se sabe ainda até que ponto o comportamento social pode influenciar o problema.
A questão, na verdade, é que o vespertino não se encaixa na rotina que consideramos normal e acaba prejudicado em muitos aspectos. O problema surge na infância. A criança prefere estudar durante a tarde e não consegue praticar muitas atividades de manhã. Na adolescência, a doença é acentuada, uma vez que os jovens tendem a sair à noite e dormir até tarde com mais frequência.
A característica vira um problema quando persiste na fase adulta. “O vespertino é aquele que já saiu da adolescência. Pessoas acima de 20 anos de idade que não conseguem se acostumar ao ritmo de vida que a maioria está acostumada”, diz Luciano. Segundo ele, cerca de 5% da população sofre do transtorno da fase atrasada do sono em diferentes graus e apenas uma pequena parcela acaba se adaptando à rotina contemporânea.
O pesquisador conta também que, além do preconceito sofrido pelos pais, professores e, mais tarde, pelos colegas de trabalho, o vespertino sofre de problemas psiquiátricos com maior frequência: depressão, bipolaridade, hiperatividade, déficit de atenção são os mais comuns. Além disso, a privação do sono profundo, quando sonhamos, faz com que a pessoa tenha maior susceptibilidade a vários problemas de saúde: no sistema nervoso, endócrino, renal, cardiovascular, imunológico, digestivo, além do comportamento sexual.
O tratamento não envolve apenas remédios indutores do sono, como se fosse uma insônia comum. É necessária uma terapia comportamental complexa, numa tentativa de mudar o hábito, procurando antecipar o horário do sono. Envolve estímulo de luz, atividades físicas durante a manhã e principalmente um trabalho de reeducação.
E as pessoas que têm o hábito de acordar às 4 ou 5 horas da manhã? “O lado oposto do vespertino é o que a gente chama de avanço de fase. Só que esse não tem o problema maior no sentido social. Ele está mais adaptado aos ritmos sociais e profissionais. Os meus pacientes deste tipo têm orgulho, já ouvi mais de uma vez eles dizendo ‘Deus ajuda quem cedo madruga’”, diz o neurologista. 



Comentários sobre o artigo
por Leandro Duarte


       Artigo regular. Cumpre a sua função de divulgação e haverá um desenvolvimento das idéias científicas se for discutido, rediscutido, criticado e trabalhado. 

           Em negrito no texto acima estão partes que modifiquei do original da revista Galileu pois entendi que houve erro de grafia: p.ex. "o gene da vespertilidade" (vespertinidade) e "O organismo humano tem um ciclo diário, de modo que os níveis hormonais e a temperatura do corpo se alteram ao longo do dia e da noite. Depois do almoço, por exemplo, o corpo trabalha para fazer a digestão e, conseqüentemente, a temperatura sobe (desce), o que pode causar sonolência". A grafia correta seria gene da vespertinidade. Em relação ao conteúdo, sabemos hoje que é um grupo de genes e não "um gene da vespertinidade". Mas consideremos que o texto se referiu aos casos extremos de vespertinidade (o que a comunidade científica chama de síndrome da fase atrasada) e nesse caso um gene se destaca dos demais (1). Em relação à subidas e descidas da temperatura, o parágrafo aborda a descida da temperatura como consequência da ingestão alimentar. Bom acrescentar nesta idéia é que a digestão colabora muito para a queda de temperatura corporal, porém, essa queda acontece também se nada for ingerido, ou seja, há uma programação circadiana para a queda neste horário do dia. O mesmo raciocínio é válido para a queda de temperatura que ocorre normalmente à noite e não somente em função do sono. 

          O importante é que o leitor não confunda a vespertinidade com a vespertinidade extrema, diferenciação que não ficou clara no artigo. Existe realmente a síndrome da fase atrasada, com uma porcentagem perto do que o pesquisador Luciano Ribeiro Jr. cita, inclusive sendo fortemente influenciada por polimorfismos genéticos (1). No caso da vespertinidade, a porcentagem na população é um pouco maior e nada mais é do que uma característica temporal normal do indivíduo em atrasar o seu ritmo circadiano. Outra parcela da população, tem esse ritmo adiantado (os matutinos) e outra muito maior (cerca de 50%) são considerados indivíduos intermediários. Melhor abordar esta classificação considerando o contínuum matutino-vespertino que existe na população humana. 




         Para verificação de suas características cronotípicas, acesse o questionário do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos no link abaixo:




       Como referência deste assunto, acesse a postagem abaixo:




       (1) ANCOLI-ISRAEL, S.; SCHNIEROW, B.; KELSOE, J.; FINK, R. A pedigree of one
family with delayed sleep phase syndrome. Chronobiol. Int., v. 18, n. 5, p. 831-840,
2001. 

O cérebro tem um horário melhor para realizar algumas atividades?

O órgão sofre alterações ao longo do dia. Mas a ciência séria se recusa a criar uma agenda fixa para todos nós

por Denise Dalla Colletta

"O funcionamento do cérebro sofre flutuações [ao longo do dia]. As mais evidentes são acordar e adormecer", explica o neurocientista Fernando Louzada. Durante o sono, temos ciclos bem claros que duram 90 minutos, nos quais as diferenças na atividade cerebral podem ser medidas. "Existem evidências de que essa flutuação ocorra também durante a vigília, temos momentos de maior e menor atenção durante o dia, semelhante ao sono, mas de forma mais sutil. Podemos não perceber porque somos bombardeados por estímulos que interferem na atenção".

O cérebro tenta sincronizar seus ciclos com as 24 horas do dia. Mas saiba que dormir, acordar e até a liberação de hormônios são atividades influenciadas principalmente pela luminosidade, ingestão alimentar e atividade física, independente do horário.

Quanto aos horários fixos, pesquisadores de cronobiologia, área que estuda os ritmos do corpo, não generalizam e dizem que não existem faixas de horário melhores para alguma atividade. "É uma grande bobagem, pode valer para a média, mas esquecemos que ninguém é a média. Transformar média em norma é um grande equivoco", diz Louzada. Um dos focos desse campo de pesquisa é justamente descobrir as diferenças individuais nesses ciclos.

Apesar de ser impossível dizer que há horário certo para fazer cada coisa, o ser humano é uma espécie diurna. "Noite e madrugada não são propícias para provas e competições, tarefas que exigem o máximo do organismo. O melhor desempenho físico, em geral, é atingido entre 16h e 20h", diz Louzada.

Os ciclos variam em cada pessoa e também de acordo com a idade. "Como bebês, dormimos muito. Depois, passamos a dormir um pouco menos e apenas durante a noite; como adolescentes, atrasamos nossos horários de dormir e acordar", explica Luiz Menna-Barreto, livre-docente em cronobiologia. De acordo com o especialista, para descobrir seu ritmo é necessário auto-conhecimento, observação e avaliação de como a pessoa se sente ao realizar suas atividades em horários diferentes. "A resposta está nos indivíduos. Convença um poeta que cria seus poemas nas horas ditas mortas da noite a escrever às 7h ou 8h da manhã. Provavelmente não vai sair nada que preste".