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Leandro Duarte



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quarta-feira, 9 de março de 2011

Quem dorme até tarde não é vagabundo, diz ciência

Segundo neurologistas, o que essas pessoas têm é distúrbio do sono atrasado

por Bruna Bernacchio


Pessoas com o gene da "verpertinidade" têm predisposição para acordar tarde


Alvo de críticas de familiares e amigos, quem gosta de ficar na cama até a hora do almoço pode ter um motivo científico para a "vagabundagem": o distúrbio do sono atrasado. O assunto foi um dos temas abordados no 6º Congresso Brasileiro do Cérebro, Comportamento e Emoções, que aconteceu recentemente em Gramado.
O organismo humano tem um ciclo diário, de modo que os níveis hormonais e a temperatura do corpo se alteram ao longo do dia e da noite. Depois do almoço, por exemplo, o corpo trabalha para fazer a digestão e, conseqüentemente, a temperatura desce, o que pode causar sonolência. 
Quando dormimos, a temperatura do corpo diminui e começamos a produzir hormônios de crescimento. Se dormirmos durante a noite, no escuro, produzimos também um hormônio específico chamado melatonina, responsável por comandar o ciclo do sono e fazer com que sua qualidade seja melhor, que seja mais profundo.
Pessoas vespertinas, que têm o hábito de ir para a cama durante a madrugada e dormir até o meio dia, por exemplo, só irão começar a produzir seus hormônios por volta das 5 da manhã. Isso fará com que tenham dificuldade de ir para a cama mais cedo no outro dia e, consequentemente, de acordar mais cedo. É um hábito que só tende a piorar, porque a pessoa vai procurar fazer suas atividades durante o final da tarde e a noite, quando tem mais energia.
O pesquisador Luciano Ribeiro Jr. da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especialista em sono, explica que esse distúrbio pode ser genético: "Pessoas com o gene da ‘vespertinidade’ têm predisposição para serem vespertinas. É claro que fator social e educação também podem favorecer”. Mas não se sabe ainda até que ponto o comportamento social pode influenciar o problema.
A questão, na verdade, é que o vespertino não se encaixa na rotina que consideramos normal e acaba prejudicado em muitos aspectos. O problema surge na infância. A criança prefere estudar durante a tarde e não consegue praticar muitas atividades de manhã. Na adolescência, a doença é acentuada, uma vez que os jovens tendem a sair à noite e dormir até tarde com mais frequência.
A característica vira um problema quando persiste na fase adulta. “O vespertino é aquele que já saiu da adolescência. Pessoas acima de 20 anos de idade que não conseguem se acostumar ao ritmo de vida que a maioria está acostumada”, diz Luciano. Segundo ele, cerca de 5% da população sofre do transtorno da fase atrasada do sono em diferentes graus e apenas uma pequena parcela acaba se adaptando à rotina contemporânea.
O pesquisador conta também que, além do preconceito sofrido pelos pais, professores e, mais tarde, pelos colegas de trabalho, o vespertino sofre de problemas psiquiátricos com maior frequência: depressão, bipolaridade, hiperatividade, déficit de atenção são os mais comuns. Além disso, a privação do sono profundo, quando sonhamos, faz com que a pessoa tenha maior susceptibilidade a vários problemas de saúde: no sistema nervoso, endócrino, renal, cardiovascular, imunológico, digestivo, além do comportamento sexual.
O tratamento não envolve apenas remédios indutores do sono, como se fosse uma insônia comum. É necessária uma terapia comportamental complexa, numa tentativa de mudar o hábito, procurando antecipar o horário do sono. Envolve estímulo de luz, atividades físicas durante a manhã e principalmente um trabalho de reeducação.
E as pessoas que têm o hábito de acordar às 4 ou 5 horas da manhã? “O lado oposto do vespertino é o que a gente chama de avanço de fase. Só que esse não tem o problema maior no sentido social. Ele está mais adaptado aos ritmos sociais e profissionais. Os meus pacientes deste tipo têm orgulho, já ouvi mais de uma vez eles dizendo ‘Deus ajuda quem cedo madruga’”, diz o neurologista. 



Comentários sobre o artigo
por Leandro Duarte


       Artigo regular. Cumpre a sua função de divulgação e haverá um desenvolvimento das idéias científicas se for discutido, rediscutido, criticado e trabalhado. 

           Em negrito no texto acima estão partes que modifiquei do original da revista Galileu pois entendi que houve erro de grafia: p.ex. "o gene da vespertilidade" (vespertinidade) e "O organismo humano tem um ciclo diário, de modo que os níveis hormonais e a temperatura do corpo se alteram ao longo do dia e da noite. Depois do almoço, por exemplo, o corpo trabalha para fazer a digestão e, conseqüentemente, a temperatura sobe (desce), o que pode causar sonolência". A grafia correta seria gene da vespertinidade. Em relação ao conteúdo, sabemos hoje que é um grupo de genes e não "um gene da vespertinidade". Mas consideremos que o texto se referiu aos casos extremos de vespertinidade (o que a comunidade científica chama de síndrome da fase atrasada) e nesse caso um gene se destaca dos demais (1). Em relação à subidas e descidas da temperatura, o parágrafo aborda a descida da temperatura como consequência da ingestão alimentar. Bom acrescentar nesta idéia é que a digestão colabora muito para a queda de temperatura corporal, porém, essa queda acontece também se nada for ingerido, ou seja, há uma programação circadiana para a queda neste horário do dia. O mesmo raciocínio é válido para a queda de temperatura que ocorre normalmente à noite e não somente em função do sono. 

          O importante é que o leitor não confunda a vespertinidade com a vespertinidade extrema, diferenciação que não ficou clara no artigo. Existe realmente a síndrome da fase atrasada, com uma porcentagem perto do que o pesquisador Luciano Ribeiro Jr. cita, inclusive sendo fortemente influenciada por polimorfismos genéticos (1). No caso da vespertinidade, a porcentagem na população é um pouco maior e nada mais é do que uma característica temporal normal do indivíduo em atrasar o seu ritmo circadiano. Outra parcela da população, tem esse ritmo adiantado (os matutinos) e outra muito maior (cerca de 50%) são considerados indivíduos intermediários. Melhor abordar esta classificação considerando o contínuum matutino-vespertino que existe na população humana. 




         Para verificação de suas características cronotípicas, acesse o questionário do Grupo Multidisciplinar de Desenvolvimento e Ritmos Biológicos no link abaixo:




       Como referência deste assunto, acesse a postagem abaixo:




       (1) ANCOLI-ISRAEL, S.; SCHNIEROW, B.; KELSOE, J.; FINK, R. A pedigree of one
family with delayed sleep phase syndrome. Chronobiol. Int., v. 18, n. 5, p. 831-840,
2001. 

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